"Consonância"
Decidi fazer um voto de castidade como compromisso de uma vida celibatária dedicada a Deus.
Decisão grande. E estranha. Destoa muito a ouvidos modernos. Até é difícil explicar. Mas não é de todo inédita.
Votos. Castidade. Celibato. Como não são termos do dia a dia, segue-se alguma desambiguação de conceitos…
Recuperar termos preciosos
Não é irónico que, mesmo agora, sinto alguma dificuldade em falar sobre castidade - algum embaraço até - quando se fosse para falar de sexo, haveria mais aceitação social? Desta pergunta salta-me logo outra mais premente: o que perdemos com esta forma de ver?
Falar de ‘castidade’ pode trazer imagens daquelas cintas de castidade medievais, ou de uma pureza das místicas inatingível. Infelizmente, perdemos muito nestas visões negativas. Perdemos riqueza e aceitamos versões baratas de castidade, de amor e até mesmo de liberdade.
Castidade
A castidade tem tudo a ver com como eu amo. É bem mais abrangente do que a sexualidade. Trata-se de como vivo o meu corpo, os meus relacionamentos, os meus desejos. Não é uma renúncia, mas sim a orientação correta do desejo. 1
A castidade é virtude para todos. A palavra deriva do latim, castus, que significa puro. Também está conectado à palavra integer, de onde temos integridade. Erik Varden diz que a castidade “é uma marca de integridade, de uma personalidade cujas partes estão compostas num sentido completo e harmonioso”. 2
Tanto casados como não casados são chamados a serem castos, a serem guiados pelo Amor (caritas) na disciplina do bem amar.
Amar bem é duro. Será dos maiores desafios da vida. Todos falhamos e precisamos de muita ajuda. “Ó Deus, dá-me um coração puro; renova e dá firmeza ao meu espírito”, clamou o salmista David após uma enorme catástrofe relacional. 3
Um entendimento cristão da castidade deriva em si da compreensão do que é ser humano. Que fomos criados à imagem de Deus, um Deus de Amor. Que fomos feitos para relacionamentos, e que no entanto não sabemos amar - nós amamos porque Deus nos amou primeiro. 4
Celibato
Celibato não é virtude; é termo mais técnico. Significa abster-se do casamento.
Mas logo que se menciona ‘celibato’, muitos pensam em abusos religiosos ou em desejo reprimido. Esta reação negativa não ajuda a pensar numa escolha legítima de vida. Houve até momentos na história em que o celibato era preferido ou teria um propósito específico. Para o apóstolo Paulo, por exemplo, ser celibatário era um estado preferível ao do casamento. Permitia maior disponibilidade no serviço ao Senhor. Não necessariamente em termos de tempo, mas em termos de um amor não divido. Há profissões, como as enfermeiras nos séculos XIX e início dos XX, que muitas vezes também eram celibatárias, vendo a sua profissão como vocação religiosa.
Os exemplos de Paulo e das enfermeiras não são apenas exemplos de vidas celibatárias. A mim parece-me que viveram vidas castas e de celibato. A castidade apresenta a visão positiva, a direção do desejo e do amor: Deus, os outros, o serviço; o celibato aponta para o estado civil. Assim, é possível alguém casado viver de forma casta. Eu estou a escolher viver uma vida casta de forma celibatária, e não sou a única a tomar este passo hoje em dia.
Esta escolha deriva, em parte, da minha convicção relativamente ao casamento. Como cristã com orientação homossexual, escolho não casar e dedicar a minha vida a Deus. Este poderá não ser o caminho escolhido por todos cristãos homossexuais, mas a decisão é fruto de uma longa jornada de discernimento pessoal. Se optar pelo celibato parece custoso, é também um caminho precioso, onde eu também posso “saciar-me de alegria”. 5
Do voto à celebração
Tomar um voto sagrado não é apenas tomar uma grande decisão. Acredito que estarei a entrar numa realidade divina. 6 Tomar um voto não cria virtude; cria um enquadramento para que cresça. Imagino que será um caminho duro. Espero encontrar tanto aflições como alegrias. Mas tomar este voto não é dizer não ao desejo nem à vida. Suspeito que há muito mais vida neste caminho que até me atrevo a imaginar, que o que eu vislumbro é apenas “um eco de tudo o que se pode contar”. 7
A celebração do voto é onde a convicção interna manifesta-se num ato público de confiança. E assim este passo requer celebração! É com alegria que quero tomar este passo pela porta estreita e larga e abraçar uma vida de aventuras com o querido Companheiro da minha alma, Jesus.
1 O conceito vem da tradição clássica e cristã: Agostinho de Hipona fala de “ordo amoris” — amar as coisas certas, da forma certa, na medida certa. O problema humano não é ter desejo, mas tê-lo desorientado, ou seja, voltado para o que não pode satisfazê-lo plenamente. Cf. Confissões I.1.
2 Varden, E. 2023. Chastity. Reconciliation of the Senses. London: Bloomsbury Continuum, p.15, tradução livre. Neste texto, recorro a fontes cristãs, mas acredito que as questões aqui levantadas — sobre desejo, integridade, e o que significa amar bem — são questões humanas, não exclusivamente religiosas.
3 Salmo 51:12, BPT.
4 Primeira Carta de João 4:19.
5 Excerto do Salmo 16:11, BPT, e uma promessa que escolho confiar.
6 Os votos não desapareceram da vida moderna — continuam presentes no casamento, nos juramentos profissionais e nos compromissos cívicos. Curiosamente, mesmo numa cultura secular, o voto matrimonial raramente é tratado como uma mera promessa reforçada. Há nele uma solenidade, uma invocação de algo maior — como se, ao pronunciar certas palavras diante de testemunhas, se entrasse numa realidade que transcende o momento. Num voto sagrado, há uma realidade divina à qual me entrego e que me recebe. É uma ideia difícil de apreender na modernidade que vive dentro do que Charles Taylor descreve de um ‘frame imanente’ — um horizonte em que a transcendência foi, prática e culturalmente, colocada entre parênteses (cf. A Secular Age, 2007). Apesar disso, acredito que a transcendência não fugiu, vivemos num mundo espiritual e somos seres espirituais.
7 Livro de Job 26:14, BPT.